24 de Out de 2021 4 min de leitura

Sobre racismo e bicicletas

Um funcionário barrado por não acreditarem que ele trabalhava no Google me fez questionar: o que racistas têm com negros e bicicletas?

Outro dia estava lendo a newsletter The Brief quando me deparei com uma nota sobre Angel Onuoha, um funcionário negro do Google que foi barrado no campus por seguranças que não acreditaram que ele trabalhava na Big Tech.

Ele foi denunciado enquanto andava de bike.
Foto de Angel, um jovem negro de óculos e sorriso aberto, com uma camisa do Google de cor azul escura.
Foto: Site pessoal de Angel no Medium.

Os dois seguranças o abordaram e o escoltaram para fazer a verificação do crachá, que apresentou um erro, complicando ainda mais a situação, em um processo que demorou 30 minutos e fez com que Angel perdesse o ônibus para casa.

Detalhe: Angel concluiu recentemente a sua graduação em Harvard e é frequentemente entrevistado sobre seus projetos e startups.

Esse caso imediatamente me remeteu ao episódio do Leblon, no Rio de Janeiro, em junho deste ano, quando um casal branco acusou falsamente um jovem negro de ter roubado a sua bicicleta elétrica.

Nota: Posteriormente se verificou que Matheus Ribeiro, o instrutor de surfe acusado, havia de fato adquirido uma bicicleta roubada, mas sem o saber, pela internet. Ambos os casos (o da falsa acusação e o da receptação de furto, considerada sem má-fé) já foram arquivados.

Jovem negro acusado falsamente de roubo no Leblon tem caso arquivado – confira detalhes - Hugo Gloss
Em junho deste ano, o Brasil se chocou com o caso do instrutor de surfe, Matheus Ribeiro, um jovem negro, que aguardava a namorada em frente a um prédio no Leblon, quando foi acusado de roubar uma bicicleta por um casal branco. Na tarde desta quinta-feira (5), a Justiça do Rio de Janeiro determinou…

Refletindo sobre esses acontecimentos recentes, comecei a me indagar o que racistas têm com negros e bicicletas.

A minha teoria é que andar de bike é um símbolo de liberdade, e ver negros desfrutando dessa emancipação incomoda certas pessoas.

Descobri essa sensação de liberdade durante a pandemia. Com a recomendação de evitar sair de casa, especialmente para lugares fechados, passei a adotar programas ao ar livre, como caminhadas na praia e passeios de bicicleta, naquelas ciclofaixas de domingos e feriados.

Foto de Cíntia com bicicleta laranja do Itaú, com a vista de uma ponte do Recife Antigo atrás dela, onde se vê o rio Capibaribe e prédios.
Foto: Arquivo pessoal/Recife Antigo. Como é linda a minha cidade!

Eu não tenho uma bicicleta própria, mas, tenho certeza que, se tivesse, jamais seria parada por qualquer cidadão ou autoridade para provar que sou a dona dela.

Tirinha de Armandinho em que policial pede nota fiscal de bicicleta a duas crianças, uma delas negra.
Tirinha: Alexandre Beck/Armandinho
Transcrição da Tirinha

Contexto
Duas crianças paradas junto a suas bicicletas conversam com um policial. Uma delas é Armandinho, que é branco, tem cabelos azuis, camiseta vermelha e calça azul. A outra é uma menina negra com duas trancinhas, camiseta branca e calça azul. Nos quadros, o policial aparece apenas da cintura para baixo, na altura da visão das crianças. É possível ver parte de seu uniforme e botas.

Quadro a Quadro
É uma tirinha tradicional de três quadros.

Quadro 1
Armandinho: Sim! Claro que são nossas!
Policial: E a nota fiscal?

Quadro 2
Armandinho: "Nota fiscal"?!

Quadro 3
Armandinho: Mas quem ia carregar uma nota fiscal?
Menina: Aqui, senhor!

Do mesmo modo, nunca precisei me preocupar ao entrar em uma loja com uma mochila nas costas, por exemplo. Nem tão pouco jamais recebi olhares desconfiados ou um alerta no sistema de som para avisar a todos da minha entrada (que feio, Zara!).

Muitas vezes, nós, pessoas brancas, não nos damos conta do imenso privilégio que temos enquanto vivemos em nossa bolha, sem imaginar os tipos de obstáculos e diferenças de tratamento vividas pela metade da população que não tem a mesma cor de pele que nós.

Acredito que estamos diante de um momento único, em que pressões da sociedade têm provocado mudanças, ainda que tímidas, nas empresas, que vão desde a criação de grupos de afinidade a treinamentos sobre vieses inconscientes e programas de trainee exclusivos para negros.

Que essas iniciativas possam ir além do discurso e prevenir novos casos de funcionários barrados ou qualquer outro tipo de humilhação provocada pelo racismo.

Enquanto isso, seguiremos vigilantes.

Cíntia Reinaux
Cíntia Reinaux
Pernambucana desenrolada, canhota, curiosa, blogueira raiz, youtuber nutella e podcaster café-com-leite. Mais conhecida como "Cíntia do Vida de Trainee".

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